quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

a morte.

Estranho pensar isso, mas acabei sentindo uma saudade que nunca coube em mim. saudade do que não vivemos, tristeza pela potencialidade que tinhas, e que nunca chegaremos a conhecer. é tão estranho, porque foi tão rápido, como se a vida não nos tivesse dado a chance do costume, do convívio com a idéia, como se a vida não quisesse dar maiores explicações, simplesmente aconteceu. Sentirei falta do teu sorriso. Tuas brincadeiras. Coisas pequenas. De saber que não te encontrarei mais por aí, despretenciosamente.
Dói.


até a próxima vez? (...)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

deixar.

Então você aprende a deixar. Deixar e aceitar. Porque sabe-se lá o que a vida guarda para nós dois. Veja bem, você e eu, alí, lado a lado, mas novamente distantes. E irônico. Mas quando você se Despediu eu entendí. dei as costas, fui embora. Mas sorri. Sorri e me escaparam algumas lágrimas, eu estava feliz, veja só, como poderia imaginar isso um dia? Sei que ainda te pensarei, mas será com uma certa felicidade de quem sabe que sabemos. Nós, eu digo. Então acordarei, escovarei os dentes, lavarei o rosto, viverei. Assim, como faz o resto do mundo.

domingo, 31 de outubro de 2010

esse é para Arthur.

Te amo com a sabedoria de agradecer em tê- lo em minha vida, pois tê-lo em minha vida, é maior e mais bonito do que qualquer desventura cotidiana, e te amo ainda com a ingenuidade de quem pouco sabe e é carente do mais sutil gesto, de quem ainda tem os olhos alargados diante da menor demonstração, ao surpreender-se com a genuinidade do mais simples ato, pois no simples consigo enxergar a substância do sentimento que dedicas, tão despretensioso. Te amo inclusive com a prolixidade de tuas palavras, ainda que teu silêncio me toque muito mais, mas, tudo bem, amor, se ainda não o sabes, pois o tanto que te amo é cor de mil tonalidades, e elas vestem uma aquarela inteira. Pois te amo com consciência e abstração, e se a consciência por vezes é tardia, já te amo antes, e me desarmo de lógica, e amo, e tanto, que distraída, amo. Que incompreendida, amo. Que contrariada, amo. Que desencontrada, amo.

domingo, 18 de julho de 2010

kumbalawê.

já sentí o desejo pelo bem um dia invadir e entranhar-se em cada um dos meus poros, correr entre minhas veias, quente, para lembrar-me da humanidade que existe em meus pés e que pede semeadura. escrevo isso para jamais esquecer, para jamais deixar adormecer aquilo que há de mais latente no ser humano, embora poucos o saibam ou tenham descoberto; o incondicional desejo pelo bem. e de certo, aqueles que ainda não o possuam por espontaneidade, que o cobrem por cascas de individualísmo, mesmo estes, tenho convicção de estarem caminhando, ainda que, em passos lentos, em direção a tal sentimento.

sábado, 10 de julho de 2010

saramago

Morrestes e não te enviei flores. ganhastes horário nobre, não te citei em meus trabalhos. Uma porrada de publicações, mal lí teu Ensaio sobre a cegueira. É que me enojo por best sellers da Veja, nada pessoal, não leve a mal. Estivestes ao lado de Crepúsculo, a saga. Para tanto desrespeito, até penso que fostes tarde, pobre homem desgostoso.
eis aqui minha pública redenção:
Viestes alertar-nos da cegueira que também é surdez, frigidez, insensibilidade. A cegueira residente na mecanicidade de nossos dias e práticas mundanas. Amizades mecânicas, namoros mecânicos, sexo mecânico. A cegueira que se alastra aos órgãos e se torna crônica.
E prosa.

sábado, 8 de maio de 2010

domingo, 4 de abril de 2010

perto

é que algo ficou mal-explicado, e dá um vazio que não ouso entender. é que ao final, beirinha da água, me destes um beijo na testa que fez teu lábio ainda quente encostar na minha pele fria e por alí ficastes durante alguns segundos e eu acreditei, desculpa. eu sei, eu poderia me satisfazer com os simplismos de nossos mal-entendidos, mas aí lembro do teu beijo, minha testa fria e tua boca quentinha e não dá, algo não fecha. e se descubro que mantens minhas declarações em que te falo de eternidade e penso: por quê? algo assim me faz acreditar, estamos tão perto, tão perto, mas estamos perdendo, porque o inverno vai chegar e o inverno não será jamais o mesmo inverno que esperávamos, vai ser frio, simples assim, e vai ser distante, e qualquer outra coisa de estranho porque tu não terás minha testa e eu não terei teus lábios e há de doer, muito.

quarta-feira, 17 de março de 2010

relicário

E teus filhos, saberão de mim? Saberão que um dia ouve uma mocinha que ocupou teu coração, por um tempo, e que então ela se foi, assim como tudo que se vai, e você continuou vivendo aquilo que conhecias, andando pelos mesmos bares, pagando as contas, reclamando do preço da gasolina para novos ouvidos, buzinando no engarrafamento, enfim, dançando conforme a mecânica cotidiana das coisas mundanas. Saberão teus netos, talvez? Quando te perguntarem essas coisas pequenas, essas coisas ingênuas: o que é amor? O que é saudade? O que é eternidade, vovô? – E Então, lembrarás de mim? Me citarás? Esconderás a lembrança com um riso, o coçar do queixo, um sorriso de canto de boca, mas, me pensarás, ao menos?
Meu bem, saiba de mim, que morrerei falando do grande amor que tivemos, que não foi o único, mas foi único, ao seu jeito.

sexta-feira, 5 de março de 2010

vanguardista.

você diz gostar de modernismo, admirar Dalí e entender Caetano, mas é refém da mímesis eterna. Ergo bandeira, invado as academias, e os grandes portões de lugar-nenhum da pouca merda e da hipocrisia balangandã. Sou Monalisa, vanguardista, enigmática e eterna. Quando se trata de mim, meu bem, o mito é maior que a obra, aprende.
Decifra meus olhos
Decifra-me, ou te devoro.

sorridi

sorrí, porque não te calas mais, porque não há mais segredos, porque o ontem se foi, o amanhã é tela em branco e cores não te faltam.
sorrí, porque tens a liberdade nas mãos, calejadas quem sabem, mas tens.
sorrí, porque ganhastes mais do que esperavas, e ainda que nada mais te parecesse digno de crença, não perdestes o tom.
sorrí, porque teus olhos, de charme juvenil, continuam, apesar dos revezes e dejàvus, quentes e ingênuos, e teimosos, vêem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

le bon vent

eles estão na janela, dois amantes. quarto andar. fumam malboro, ela assume o último do maço.
ele pra aula, latim jurídico.
-au revoir, mon coeur.
ele sorri, fecha a porta.
enquanto deixa o cigarro queimar, contra o vento frio de sampa, canta baixinho, voz terna, quase muda, abafada pelo burburinho universitário da rua.
"...avant l'ombre et l'indifference, a vertige puis le silence, je veux juste une derniére danse..."
enquanto as cinzas são levadas pelo vento, uma parte volta com a brisa, cinza, contra a blusa. o amor foi embora, talvez. ela promete baixinho, retórica, como promessa bonita que há de se cumprir:
- você será o último, vício maldito.
distraída, ainda cantando, lá debaixo, freando o caos sonoro, ele berra:
- PAULI! - e lhe assopra um beijo.
- VOCÊ É NUTS! NUTS!
- EU NÃO ESTOU OUVINDO!
ela sorri de novo. o vento já levou tudo. ele sobe a esquina da maria antônia com a itambé.
- "...merci d'avoir enchanté ma vie..." e arrisca um sorriso, abafado, pelo vento.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

trupe

assim que ficaremos, meus amigos, na nostalgia, nossos risos de coxia, as brincadeiras de final de ensaio, os tangos, os passos, as sombras nas cortinas. vou amá-los tanto, que a mim só cabe acreditar que assim será mais bonito. o partir é tão bonito, não acham?
o fim que é anterior ao desencanto, que sela os destinos e emoldura magia nas lembranças. é assim que vocês ficarão. e meus pés vão sentir falta dos tacos quebrados do palco, e minha voz vez em quando vai pedir sopro, mas não haverá ninguém, bem sei.
amigos, vocês pensarão em mim? sinto tanto que pensarei em vocês, a cada dia. sinto que serei eternamente apaixonada por um querer que não mais me vestirá.
me perguntarão: o que está por trás de tanto afeto? o que explica o pulsar de teu coração acelerado que hoje chora tanto?
e eu, caros amigos, do alto da minha crença, direi: o sonho, basta o sonho. porque do sonho, se revelam eles, cada qual na sua ternura, ingenuidade e fé, imensurável.
vou viver então como uma dessas mulheres de atenas, nutrindo-se de um amor desmedido e incondicional, que se alimenta do ontem, da saudade, da lembrança. e vou viver pra esperar. esperar o reencontro, que talvez jamais virá. ainda sim, hei de ter uma razão, um porquê, um amor que inquieta e que conforta minha solitude, porque solitária já não sou mais.
à vocês, meus companheiros de vida; a minha saudade, gratidão e reconhecimento - o mais doce e latente possível.
amor,
pauli.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

tanto quanto.

o amor que por tí tive foi de drummond, eterno enquanto durou. por ti cavalguei cruzadas e nadei mares que nem cheguei a conhecer. em sonho, talvez. te admirei tanto, que te olhava e quase chorava porque sentia teu coração batendo em sincronia com o meu no meio da noite. hoje não o sinto mais. mas sei que o amor que por tí tive não me abandonou, ele vive em mim e é reinventado todos os dias, pelo andarilho, pelo menino malabarista do sinal, pela amiga cheia de problemas, o vizinho que perdeu o filho no acidente de carro, a avó que me pede atenção. o amor que por tí tive não era teu, era meu. por isso tão abstrato, tão passageiro. não é assim, o amor, benzinho? a gente ama o tanto quanto sabe, o tanto quanto pode, o tanto quanto tem.

sem lenço nem documento.

o que vai ficando é um pouco solitário. Para alguns não consigo ir sem dizer adeus, para outros nem quero. E o que fica, será mesmo que fica? Será que o que é de fato forte, não me acompanha? É aí que aprendo que o que temos é o que somos.
o livro que ontem era importante, hoje fica. o ursinho que era xodó, fica. A caixinha, a almofada. O pai, a mãe, o irmão, a avó e a tia. Ficam todos.
Fica também a pergunta: fui eu quem escolhi o caminho? Ou foi ele quem me escolheu? Hoje vou fechar os olhos e sentir o vento, porque não quero pensar. A gente se engana tanto pensando (...) Sou forte, sou por acaso, cazuzeando na paulicéia eu vou, entre becos e o céu cinza. Benção pai, bênção mãe.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

desconfio

Desconfio que ele virá moreno, calmo e de sorriso largo. Não é nada contra os loiros, apenas sei que virá moreno. Quanto a textura não sei, mas desconfio que não seja liso. Desconfio que o encontrarei entre uma estante e outra de literatura nacional da siciliano ou de mpb da saraiva. Desconfio que ele estará usando óculos, pra despertar em mim um certo interesse intelectual. Desconfio que fume, mas pouquinho, como eu. Desconfio que ele beba também, mas só quando está entre amigos querendo celebrar a vida, como faço. Desconfio que ele já tenha tentado aprender violão, mas foi mal sucedido no assunto, porque os dedos são grossos, masculinos e bem acabados. Desconfio que ele não seja de sorrir a toa, que tenha um humor refinado e um olhar misterioso por detrás das lentes finas. Desconfio que ele pense um pouco em mim, ainda que de forma abstrata, quando acorda de madrugada e sente insônia, então desconfio que ele liga o mp3 e fica observando a lua um pouco raivoso da música que o lembra do amor que ele ainda não conhece, ou meramente do fracasso das aulas de violão por conta dos dedos grossos. Desconfio que quando ele pega no sono, sonha com barquinhos de papel e sente saudades do avô que já morreu. Desconfio que o avô seja sua maior saudade e tenha lhe ensinado os mistérios da vida e a cortejar o mulherio, falo cortejar porque desconfio que seja essa a palavra que o velho usava. Desconfio que ele não seja tão bonito, nem tão alto, nem tão forte, mas que tenha braços aconchegantes e saiba falar manso quando está apaixonado. Desconfio que ele colecione cicatrizes de uma catapora que pegou na infância porque era moleque demais e teimoso demais, e por isso se coçava todinho, só de pirraça, desconfio. Desconfio que seja paulistano, carioca ou mineiro, não importa, mas sei que passava as férias em alguma cidade do interior ou do litoral. Se era do interior, desconfio que fugia nas tardes para cavalgar com cavalo roubado, se era do litoral, fugia nas madrugadas para catar conchas ou deitar na areia e ali ficar por horas, contemplando o quebrar das ondas. Desconfio portanto que tenha aprendido a admirar as coisas simples da vida e que saiba ser um bom companheiro, que goste de piratas e de bolo de banana.
Desconfio que ele me reconhecerá quando esbarrar comigo entre as estantes, mas não perguntará meu nome, em partes porque não é direto, em partes porque não é assim que o avô o ensinou. Desconfio que puxará assunto sobre o livro de haikais que estarei comprando e acabaremos trocando telefones. Desconfio que ele não me ligará na primeira semana, mas na segunda certamente ligará, e eu ficarei surpresa. Desconfio que combinaremos um café e ele me fará rir, dizendo que tinha me reconhecido desde o primeiro momento e eu direi que nããão, não me diga que acreditas nessa coisa de amor a primeira vista, e ele me olhará desconfiado dizendo que não acreditava até então. Desconfio que ficarei sem palavras. Desconfio que ele dará um gole mais longo. Desconfio que ficaremos juntos, por anos, talvez alguns, talvez muitos, mas certamente ele me chamará de flor e eu o chamarei de coração, de previsível que sou, desconfio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

amor, para mim.

Ontem escutei um "te amo" bem atrevido e inesperado. gelei. minha primeira reação foi pensar: mas, já? em seguida, pensei: mas, você?
o fato é que o "você" em questão não é vulgar. não é como um te amo de seu coleguinha apaixonado da 3a série.
minha terceira e última inquietação, foi: e por que não? sim. por que não? por quê? quer dizer, para que tanta resistência?
Dizem que o verdadeiro amor não é condicional, e acredito nisso não porque está nos livros ou em refrões de músicas, mas porque já vivenciei isso. minhas experiências pessoais me provaram, fosse em movimentos sociais, fosse em exercícios de teatro. Concluí: para que tanto espanto, Paula?
ok, aí as pessoas vão pensar: que papinho mais água com açúcar, lady. É nada. Quando pensamos em amor na sua forma mais universalista, entendemos isso. Amei meu melhor amigo de teatro desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Fizemos um exercício juntos, chamado "Espelho". Consiste em ficar de frente para o seu parceiro, e imitar os movimentos dele, sincronizadamente. o som das músicas ao fundo era responsável pela ritmia. No começo, a preocupação com o mimetismo é mais forte que a sincronia, mas com a passagem dos minutos e o envolvimento energético, a coisa rola de tal forma que ao final, estão ambos gesticulando igual, sem nem ao menos saber quem deu a ordem. Eu amei o Pablinho desde então, sem nem ao menos saber o timbre da voz dele. É claro que o sentimento cresceu desde então e amadureceu, até porque foi correspondido pela pessoa extraordinária que ele se mostrou, mas isso não vem ao caso, agora. Falo de amor incondicional, sem pensar em sentimento sexualizado, falo de reconhecer o que há de mais humano e digno de amor no outro. Acho que amar é isso. Reconhecer o outro, enquanto humano. Não temer o outro, seja lá o que for.
Existe um exercício ainda melhor, o de fitar. Em silêncio, você se senta de frente para o colega enquanto fita ele nos olhos, sem poder desviar do ponto de observação. Quando olhar incansávelmente para a íris da pessoa deixa de ser desconfortável e se torna aconchegante, você está liberado do exercício. Por mais inseguros que sejam aqueles olhos, por mais frágil e misterioso que seja o apoio emocional que eles te proporcionem, você desenvolve a capacidade de enxergá-los. não meramente fitá-los, mas enxergá-los. Enxergar é entender. Um entender que dispensa comos, porquês e poréns.
Isso é amor, para mim.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

.

só existem dois sentimentos no mundo:
amor
e medo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ricos somos nós.

Já ouví de tudo. Há quem diga que o brasileiro é acomodado, conformista e o escambau. Um pouco, talvez.
Eu digo mais: além de tudo, o brasileiro é rico. é bon vivant e nem sabe.
Ai,ai,ai. tá. Não me venham atirando pedras sem antes eu ter a honra de me explicar, tá legal? Eu sei. Sei que a vida lá fora é dura. Sei que os impostos são altíssimos e o retorno é uma merda. Não estou querendo bancar a filhinha de papai falando o que não sabe, peraí. give me a break.
Só não entendo porque não nos contam a verdade. Não é que tenhamos ganhado na loteria, nem nada, mas vou contar um segredinho: Somos ricos. Sempre fomos. Pobres são eles. Eles, os gringos. É por isso que precisam de tanto computador. Tanta máquina, tanta arma, tanto foguete, tanta bomba. O que falta para eles é luz e água. Luz e água é riqueza. Luz e água é comida, vida. Aí eles se enfiam naqueles laboratórios e desenvolvem todas as ferramentas possíveis para extrair daqui o que é nosso. Ou então realizam reuniões e mais reuniões para desenvolver planos de governo, políticas subsidiárias e todo esse blablablá que vai lá, pode ser um bocado inteligente, mas se analisarmos mais atentamente, é o sinal de que, para eles, o buraco é mais embaixo.
Opa, então quer dizer que não nos falta nada? Ô se falta. Falta know how, falta incentivo do governo ao empreendedorismo, falta educação, enfim, tudo aquilo que já estamos cansados de saber.
Agora, me respondam: que país no mundo resistiria aos golpes de corrupção que sofremos e ainda poderia ser considerado emergente? Que país do mundo tem uma gente que sofre tanta paulada, e no final da tarde deita na rede, de frente pro mar e rí da vida? Rede? De frente pro mar? Rindo da vida? Ihh(...)isso pra mim, é coisa de rico!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

eu passo.

Eis aqui toda e qualquer resposta que desejas de mim. Não pretendo tocar-te , sensibilizando-o ou explicar-me futuramente, nem mais uma vez, então serei bastante clara, como pouco o fizestes por mim:

Renuncio ao teu amor, tua admiração, tua atenção e teu pauperismo emocional.
não quero tuas frases pensadas, tua poética metrada em aglomerados vazios fonéticos
se me veneras, entre palavras secas, ó querido, então guarde-as em tua boca comedida.
de que me vale o teórico encanto de quem nem ao menos vibra ou sente o sangue rubrir as veias? de quem nada ama a ponto de perder-se, nada odeia a ponto de quase querer, nada atinge as moléculas ou faz o brilho da íris tonear-se espontâneo e febril?
gostar é pouco, é verbo de covardes. porque o gostar não preenche, não move vidas, não arrisca-se, não comete crimes, não pinta telas de Picasso, não conhece o sangue, a cólica, as guerras, a dor do parto, da morte, da saudade.
se tudo que me tens é isso, meu amor, - se é que um dia o fostes de fato - sendo assim, eu, que tanto tanto ardí por ti, abdico então dos teus quases, teus limites, teus consolos. prefiro o silêncio ao pudor. o branco ao rosa-pêssego, enfadonho. Saiba de minha boca, antes que o receba por meio de terceiros, que tais traços contidos e crayons pastéis com os quais retratas teu cotidiano morno me dão náuseas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

para T.

estava cansada, me sentia sozinha
longe de casa, da cama, do conforto conhecido.
deitei-me cedo, antes de todos.
acordei resmungando solidão.
languidez das pernas brancas demais
entregue, descansada, colchão inflável
vento entre dedos, tornozelos,
subia até as coxas.

foi então que senti as mãos, mãos desconhecidas
até então.
ainda sim ele contornava meu rosto
com a ponta dos dedos finos
testa até queixo,
depois soprava meu pescoço, nuca, orelha
beijava o rosto queimado de sol,
maçãs salientes, rosas.
por fim, colocou-me uma concha no ouvido
e me disse que era o som do mar
comentava com todos ao redor,
que observavam a cena, um pouco carentes.
como é linda, ela é linda(...)
bêbada de sono, retribuía com um sorriso
esfregava o rosto quente no seu colo, aconchegante.
por fim, sussurou doce, enquanto soprava o nó da orelha:
"que meus carinhos saibam sempre encontrar teu rosto."

jamais esquecerei.
carinho-poema, o teu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

paraty.

há aqui qualquer coisa que me encanta
talvez poesia de coxixo de esquina
sopra quente no pé do ouvido
versos que nem chegaram a nascer
quem sabe, pés-de-moleque sem fim.
ou linha do horizonte, um pouco como eu
indecisa entre
céu
e
mar
(?)
me pega pela mão, provocante
aroma de fim de tarde, laranja.
lançando redes ao mar.
é ciranda que divaga, devagarinho, devaneio.
quem convida moleque a sonhar.
então são velas, cores, aromas.
para tanto não posso mais, quimera.
poderiam-se eternos, quem dera

ah,olhar ingênuo
se me fostes fiel até então
não haverias agora de me enganar
se for sonho ou fantasia,
atrasa meu relógio,
peço o favor de nem me avisar.

(sábado, 28/11/09 - Paraty.)

sábado, 21 de novembro de 2009

para Dudu.

é engraçado o que acontece por aqui comigo. os adultos me ensinam muito, mas tenho aprendido demais com as crianças. as crianças, são as crianças que colorem meus dias.
ontem observei novamente um menino do morro. Chamo ele de Dudu, não deve ter mais de seis anos, tenho acompanhado ele há algum tempo. notei que ele tinha dificuldade de se expressar, e talvez por isso reagia com agressividade à qualquer brincadeirinha que os outros meninos aprontavam com ele. Me sentia um tanto frustrada. Não por ele, por mim. por não saber como parar com aquilo. Perguntei aos moradores se alguém tinha informações sobre o garoto. Quem era o pai, a mãe, se era um bom aluno, se tinha irmãos, o que gostava de brincar, quem era seu melhor amigo, o único - talvez.
Descobrí que o pai havia esquartejado a mãe e vivia agora com uma segunda mulher, enquanto ele traficava drogas, essa fazia ponto na estrada, para ganhar alguns trocados. Uma criança vinda de tal meio não poderia ser menos agressiva do que ele vinha sendo, pensei.
Foi então que em uma sexta-feira, presenciei novamente a briga entre ele e os tais meninos. Chamei ele para um canto, com carinho, como quem não queria nada. Me abaixei de forma a ficar na sua altura, segurando-o pela mãozinha esquerda, os dedos pequenos e gelados:
- Dudu, fico triste em ver você bater nos teus colegas. Quando eles implicarem com você, me avisa, mas não bata em ninguém. O mundo já tem muita violência, entende? O mundo precisa é de amor.
Imediatamente, imaginei que o que havia acabado de falar fosse de difícil compreensão para ele, tão pequeno ainda. Ainda assim, calada, fiquei esperando uma resposta. Ela veio.
Dudu agora tinha os olhos marejados e me olhava fundo, uma certa dor e raiva. Segurou o choro durante alguns segundos. De repente, abre os braços, e me abraça, forte, muito forte, até então tinha sido o abraço mais forte que havia recebido. Digo "até então" porque esse abraço teve bis. vários. Hoje, toda vez que apareço na escola, ele corre até mim e me abraça, aquele mesmo abraço. A diferença é que agora não mais chora, apenas sorrí. e ainda completa: "Eu te amo, Pauli."

(acervo do antigo blog.)

sobre o que não tem volta:

sentí sua falta. não queria recorrer ao desespero, mas foi com rapidez que te procurei por todos os cantos. msn? nada. talvez uma sms no celular. não, aí eu estaria estragando tudo. esse espaço seguro que firmamos entre nós. ou seria eu quem o firmou? já não importa mais.

hoje, tenho certeza que dormiria abraçada contigo novamente. sinto falta de tudo. até do aroma do teu desodorante. desculpa, desculpa, desculpa mil vezes, mas o vazio é tão grande, que não pude evitar em escrever tudo aqui. confesso: esse texto, mais do que qualquer um, é um desabafo.
não reclamaria, amor, de forma alguma, amanhã, ao acordar, do meu possível torcicolo no pescoço, - pois eu tenho certeza - você teria me feito dormir torta, entre seus braços.
não reclamaria se você mais uma vez, jogasse tuas meias por todos os cantos, nem ao menos me questionaria: - fazes isso só pra me irritar né cabeção? só pode...
por hoje, não demonstraria o menor sinal de exaustão em te abrir a porta de madrugada, e perguntaria como há muito já não perguntava mais: e o show? muito cheio?
eu te traria sorrisos, como aqueles que você me trouxe, por tantos anos. e mais uma vez, um café na cama, e mais uma vez, buscaria tua toalha. e ligaria o aquecedor, e cobriria teus pés.
a luz laranja no canto inferior do monitor anuncia: é você. o de sempre, você.
são poucas palavras: cansaço, sono, show e um "tudo bem?" (seria apenas por educação?)
você precisa dormir. - "durma bem." - eu digo. e você vai. sem nem ao menos saber o que se passa de verdade comigo. e eu deixo você ir. a paz da solidão fará mais por você do que eu poderia.
não julgue o meu sentir. o meu sentir torto, o meu sentir contra-mão. muito menos duvide de tal. te amo tanto, que quase não sou mulher o suficiente pra isso. mas o tempo pede paz, e os caminhos são opostos.
Descansa.

ainda que tarde,

eu só queria que você soubesse, que mesmo chegando tarde, cheguei inteira.
eu só queria que você soubesse, que enquanto você dormia, eu observava o contorno do teu perfil iluminado pela cortina entreaberta ao meu lado esquerdo, e observava com um zelo que você nem imagina que exista. já decorei teu cheiro e o som da tua respiração forte de cansaço.
eu só queria que você soubesse que eu jamais quis ir embora naquela noite, pensei sinceramente em desligar o alarme do celular, ou apenas adiar alguns minutos, mas o dia insistia em nascer e nada podia frear um sol de domingo.
não precisava, portanto, vir armado, querido
ergue bandeira branca, faz favor.
eu só queria que você soubesse que o meu retorno não foi remorso.
o meu retorno é o reconhecimento de um alguém que não soube conhecer.

sábado, 14 de novembro de 2009

ao primeiro.

acontece, porém, algo curioso comigo. minha sensibilidade é muito imprevisível. deixa eu te contar: esses dias estava andando pela cidade e parei em uma esquina qualquer, de forma que a primeira coisa que fitei foi uma loja de intrumentos musicais, inevitável aos meus olhos. comentei com quem estava ao lado: engraçado. toda vez que eu parar na frente de uma loja de instrumentos, vou lembrar dele. então depois de uns dois segundos, me calei e sentí a dor da minha própria frase. uma dor que eu ainda não tinha sentido, desde então - é, muito tempo. uma dor que eu acreditava que nem mais existia. e repetí, agora com a voz embargada: é. vou lembrar, toda vez, até o final dos meus dias. veja bem, será um bocado de lojas de instrumentos ainda por vir.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

adiòs,

este é o adeus que achávamos que jamais chegaria, desconfio. ainda que agora meu coração esteja quebrado em mil pedacinhos cintilantes que parecem aquelas continhas de cristal que você colocou em meu pescoço. coração, continhas, e enquanto você se despede eu sinto cada lágrima que ainda não caiu,embora eu saiba que elas não tardarão, engulo o nó, espero você virar a esquina, mas por favor, não olhe para trás, não, não, por favor, por que você insiste em piorar as coisas? e o pior é que não chego a te odiar nem por um segundo, não, na verdade... quer parar de me olhar bonito? detesto quando você me olha bonito! sim, eu sei que está frio, eu sei do vento leste, sei da lua cheia, quer parar de me encantar? não, não vou me gripar, não te preocupes. olha, presta atenção no que eu digo, tenho tanto pra te dizer... baixou aquela música que eu te falei? quero muito que escutes ela no caminho de volta, até enjoar de todas as nossas lembranças e sentir um gosto amargo no canto da língua. sabe porque? tenho uma teoria: vencer amor por cansaço. quando você se machuca, bem, é melhor pressionar o ferimento, até a pele cansar, o sangue coagular e a ferida estancar. a gente podia ser tipo assim, né? tipo, exaustivamente amantes, até o desencanto. ai, o desencanto seria tão mais fácil. porra, me escuta, aonde tu enfiastes o bilhete agora? bem tua cara né, haha, vou sentir saudade dos teus defeitos, eu acho. mais do que do teu sorriso, até então vão ser continhas, a saudade, teus defeitos, e teu sorriso, e a porra dessa música, é demais. olha, sei não se vou aguentar. não importa, queria desistir, mas não resistí, vou pressionar bem fundo a ferida, em cada minuto dos meus dias. ei, peraí, como? queria muito fazer uma loucura possível hollywoodiana e dizer: motorista, pare este ônibus, mas acho que não dá. a gente podia viver um tantinho a mais de loucura de vez em quando né? cadê o chinês da frente to tanque da praça da paz celestial pra baixar em mim agora? tarde demais, tarde demais, então tá: queijo e boa viagem. é green spandex do xavier rudd, NÃO ESQUECE, eu fico realmente brava com essas coisas, vou até anotar num bilhetinho, porque eu sei que você... tens caneta? ah, isso, lembrete de celular serve. é, haha, economiza árvores também, tá, tá, eu também. mesmo. muito. é... tchau.
esquina.
lágrimas.

domingo, 8 de novembro de 2009

o preço

qual preço dessa flor
que vem
de lote enumerado,
fabricação: estado do Rio
(?)
e tem
alfinete tão fechado,
tão desacostumado
com frio.

mas
escondo o desejo
escolho no bairro
um lugar de fugir

e vai
mais um quase-beijo
na boca que arde
de tanto mentir

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

meu sambinha de quarta-feira soleggiata.

sobrou o gosto na boca
mas que desgosto me dá,
ai que desgosto me dá,
essa tua partida.

e agora eu fico aqui
arranhando violão
com a calma que eu nem tenho
com o tocar que eu nem sei
ah, mas que desgosto me dá.
é um tal de
pá, pá, pá, pá,
assim, bem mansinho

um tal de
pá, pá, pá,
meu carinho é de uma nota só
não sabe rimar,
só sabe gritar, e cantar e cantar
o tal do pá, pá, pá

meu carinho é de riscar
corações e anotações e chorinhos
em
sacos de pão, papéis, palma de mão

mas, aiaiai
mas que desgosto me dá.
ah amor, que desgosto me dá.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dossiê eu-mesma.

Às vezes vejo aqueles documentarios da Discovery, GNT, Multishow ou da National Geographic sobre civilizações extintas. Sim, eu sou horrores chata. Vejo mermo.
Anyway, o que eu quero dizer é: Legal, professeur Theroux, mas, será que é só isso? Quer dizer, talvez um dia vocês consigam decodificar a escrita dos Maias. Talvez achem o segredo da morte de Nefertiti, ou sabe-se lá qual curiosidade sobre Tutancamón, Alexandre o Grande, Clodovil ou da Lady Di. Tá, tá, beleza. Mas e o que existe de maior por detrás disso tudo? Quer dizer, e o ser humano?
Quando penso em mim, tenho certeza de que os acontecimentos mais importantes da minha vida, aqueles que de fato influenciaram a minha existência, não estejam visíveis ou aparentes. Pelo contrário, são guardados a sete chaves, entre cadernos, anotações de guardanapos, sacos de pão, tickets já usados, passagens de avião, navio, pedalinho, trem do terror, exposições e pasmem: multas de filmes e livros vencidos. Estes, atirados dentro de caixas perdidas e esculhambadinhas e agora, sim, em partes no meio virtual.
Sim, eles possuem materialidade. Sim, eles dizem lá alguma coisa, mas jamais o essencial. Não dizem com quem estive. Não dizem como me sentí, que mãos segurei, que braços abracei, não falam que música que tocava, não falam do clima que existia naquela tarde, ou naquela noite, ou do aroma daquela manhã. Não é sempre que existe um Caminha redigindo com clareza e merecida poesia a descoberta cotidiana das coisas, o encanto que causam sobre mim e o encanto que causo sobre elas. Entendem do que eu falo? As coisas, essas bonitas, na suas primárias, reais e vibrantes formas: aquelas que existiram.
A perecividade das memórias é efêmera, mas precisa. Está lá para nos recordar da abstratabilidade do mundo, da não-palpabilidade dos sentimentos, das lembranças e da riqueza da subjetividade humana diante da vida.
Não querendo citar Saint Exupéry, mas, já citando: É. Talvez o essencial seja realmente invisível aos olhos.

domingo, 11 de outubro de 2009

retroliteratura.

curto
amor
curto.

só sinto
ser tão
suscinto.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

pão e circo.

...então tá, meu amigo sindicalista revoltadinho. continuo te amando muito muito, apesar de teres virado essa pessoa adulta, séria e escrava dos ponteiros.

p.s: ah, esquece as cartas, jão.
entendo do que tu falas. mas acho esse desvio de conduta de uma miséria emocional enorme, chego a sentir pena. Pobres, tão enganados. será que se eles pudessem voltar atrás, reviver como num flashback todos os momentos em que foram felizes, não se espantariam com a simplicidade da situação?
Será que político subiu em árvore? E goiaba de pé, comeu? será que político conhece bicho de goiaba, jãozinho? e banho de chuva, tomou? melhor: bolinho de chuva de vó! será que político tem vó? brincou de catavento? unidunitê salamê minguê! hahahaha e aula, cabulava aula?
benzinho, esquece as bandeiras. sabe o que eu acho que você tinha que mandar pro senado? um pedaço de cuca com capilé.

amor,
Pauli.

lobo mau.

Como queria poder tanto te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

sábado, 26 de setembro de 2009

carnaval às avessas.

acontece que muito andei e muito ví e conhecí muita gente de carne e osso.
foi então que não mais conseguí acreditar em máscara, nem achar charme nisso.
minha interpretação hoje se resume a 3 horas de aula, uma vez por semana, ainda que chova muito, me transformo em freira, em puta, em madrinha de cinderela. sem culpa, sem constrangimento, sou aquilo que me pedirem. e dalí morro, morre a vaidade, morre a sombra.
não me venha portanto com palcos e textos de ponta-de-língua cotidianos.
tal amadorismo já não cabe mais em mim.
não é falta de tempo, não é impaciência. é que hoje tenho alma.

ingênuo

Já acho graça em clichês, misturo dialetos, respondo sombras nas paredes, choro poesias inuits, entendo picasso e miró, subo pela escada, esqueço o atalho e pego o caminho mais longo, arrumo com prazer o armário, demito o pretérito imperfeito do meu vocabulário.

aiai. Como é ingênuo o amor.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

surrender.

assim como o vinho velho se torna mais saboroso,
o all star sujo aparenta mais bonito,
estranhos se tornam mais interessantes quando bêbados,
o franzir na testa dele o faz mais homem,
a nota tocada errada no violão me parece mais sonora,
assim como minhas mãos sujas de crayon preto se mostram mais sinceras.
é porque se mostram.
as pessoas são mais bonitas quando se entregam.

à arte.

a arte não é pra entender, tampouco para pensar nela
mas para voltar atrás, e assustar-se com a vida;
isto que está em aberto, esperando.
olhos atentos
bocas cantantes
corpos vivos.

sobre Deus.

sobre Deus II

tinha uma mariposa na parede.
a sala, fechada.
ela morreria.
não, não, não posso compactuar com uma morte - pensei.
me aproximei.
fechei a palma das mãos sob ela
e ela se debatia, se debatia muito.
fui até a janela, soltei.
e ela voou até o maravilhoso mundo das mariposas.
no maravilhoso mundo das mariposas, ela disse pra alguma mariposa amiga:
- hoje aconteceu a experiência mais singular de toda a minha vida. eu estava perdida, em uma sala. aí uma espécie de nave extraterrestre, eu acho, me abduziu. e eu não via nada, era escuro, escuro, muito escuro. achei que eu ia morrer. e em questão de um, no máximo dois segundos, me transportou pra um lugar lindo, que eu nunca havia visto em toda a minha vida de mariposa. e então, não ví mais nada. assim, como num passe de mágica, o disco voador sumiu. olha amiga, foi Deus. jamais achei que iria sair viva dalí.
e a outra mariposa, desacreditando com um ar blasé, respondeu:
- ahn, tá.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

.

feliz é aquele que conhece o perfume do que perdeu.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ao meu querido amigo taxista.

Consolação, esquina da Dona Antônia de Queiróz com a Augusta. A menina, confusa entre o semáforo, as bagagens e a amiga, em despedida.
se despedem então, com todas as possíveis promessas e carinhos que amigos fazem.
- Boa tarde. Rodoviária Tietê, por gentileza.
A menina ainda abre a janela, coloca as mãos para fora, em seu ritmo quase estático, enquanto os carros seguem seu curso caótico, e aos poucos, a imagem da amiga naquela esquina entre a Dona Antônia e a Augusta vai ficando menor, e menor, até que nada se vê. nada além de uma janela coberta por um busdoor de uma propaganda qualquer do supermercado Pão de Açúcar.
- acabei de trocar de carro, mocinha. você é a primeira passageira que eu pego. - disse sorrindo um certo entusiasmo pelo retrovisor. não que pudesse ver seus lábios, mas os olhos, os olhos enquadrados pelo espelho sorriam, sabia ela.
e por um segundo sentiu uma infundada honra, estranho até, mas se sentiu honrada. era a primeira. fazia tempo que não era a primeira de alguém. e - ah, que ironia - lá estava ela, Avenida Paulista, desvirginando um Renault.
- ah, que legal. poxa, moço. te garanto que não é todo o dia que me acontece isso.
e agora ele ria, ela tinha certeza. não pelo olhar enquadrado, nem nada. mas o ruído, ele riu alto.
e foi preciso alguns precisos minutos de engarrafamento na Paulista para o senhor descobrir os motivos, razões, circustâncias e planos da menina na cidade. alguns poucos minutos a mais e era ela quem recebia uma breve introdução da vida daquele trabalhador de 54 anos, uma filha, que não fosse a condição financeira do pai, estaria estudando em uma faculdade melhor.
- Me faltou tempo - disse irônico, esfregando o indicador contra o dedão, em sinal de dinheiro. - fosse alguns anos a mais e eu teria colocado ela no Mackenzie.
- Acredito muito no mérito das pessoas, senhor. O que é dela, com esforço, vai chegar. - a menina ainda tentou consolar.
Ele, não se sabe se por comodidade ou por crença de fato, acenou com a cabeça, como quem concordasse.
Alí se descobriam dois estranhos, unidos entre o acaso e a coincidente necessidade de um táxi entre a tal esquina da Consolação num final de tarde gelada de terça-feira paulistana. Provavelmente, jamais se veriam novamente. Não importava. Ainda assim, ele dispensou um pouco de sua atenção de taxista, ela poupou a bateria do seu mp3 e a possibilidade de ficar calada, (como era costume em tal situação), para se conhecerem, os dois estranhos. Coisa de gente, intercâmbio de inquietações.
Chegaram. cuidadosamente, ele tirou suas bagagens do carro. Dos 12 reais só cobrou 10, num ato de generosidade. Em pouco tempo, havia criado pela menina um carinho desmedido, digno de gestos de preocupação, devotando a ela um pouco de humanidade. Ainda entrou no carro, e a esperou subir as escadas com a mala, atencioso, como bom pai que era.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

i do believe in fairies, i do, i do!

as pessoas ainda não aprenderam a amar. é preciso errar, pra aprender. dois, três, uma coletânea de ex-namorados, casos, acasos e descasos, é preciso um bocado de auto-suficiência, maturidade emocional, e coisa e tal. era o que eu pensava, até um tempinho atrás.
hoje acho que amor é 90% de vontade de amar. simples assim. às vezes, dá vontade de gostar, fazer aquilo ser ritmado, bonitinho e tudo mais. às vezes, não dá. tem gente que justifica o tal "não dá" por um passado sofridinho, acho isso tão brega... e por ter sido uma vez infeliz se julga predestinado à infelicidade, e perde o encantamento pelas coisas bonitas, e complica tudo e todos. ah, tão chato assim. é preciso amar ao som de mpb, meus amigos. é preciso amar olhando a chuva através da janela, deixando bilhetes por todos os cantos, nessa bobagem-inteligente, amar sem falar no amanhã, pois sabem-se. amar sem a necessidade da hierarquia ou burocracia, sem status de namoro ou seja lá o que for. amar incondicionalmente, na vontade, na saliva, no querer.

domingo, 30 de agosto de 2009

universo-umbigo chamando.

o primeiro grande golpe narcisistico sofrido pelo ser humano foi ter descoberto não ser a terra o centro do universo. esse heliocentrismo magoa muita gente até hoje. tem uma pancada de galileus por aí, tentando acordar essa gente morna. mas é duro, é duro... pegar a nave-mãe, até o centro do universo-umbigo.
queria tanto ser mais conformada, de vez em sempre. queria tanto ser mais babaca, assim por dizer. tirar férias de mim mesma, sabem? suspender essa dose de moralina que consumo diariamente, homeopaticamente, incessantemente, que é pra poder camuflar o contraste que não me desce a garganta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

os sobreviventes

Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mais inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade, e você em Sri Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem: ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ele ficasse aqui entre nós, palmeiras & abacaxis.
Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela Ro-Ro enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse. Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas, os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais.
(...continua. - caio fernando abreu.)

tom sur tom.

ao meu querido estranho íntimo.
(para ler ao som de chris isaak - wrong to love you.)

sorriu devagar e com canto de boca: - olá.
por simpatia forjada, ela responde: - olá.
ele continua: - já tem cartão fidelidade livraria cultura?
(não tenho sido fiel a nada ultimamente, pensou.)
- é que não sou aqui de são paulo.
- ah, não? de onde és?
- do sul. santa catarina. (ainda sentiu uma enorme voltade de explicar o acidente geográfico, mas não era para tanto.)
- que legal. e van gogh, gosta dele?
- gosto de vários, sente minha indecisão pra escolher um só.
- é, hahaha eu também ví você com um calendário lindo na mão antes
- ah, sim! da frida kahlo, haha.
- nossa, adoro ela. haha
- na verdade é pra minha avó. o livro.
- um belo presente, com certeza. ela vai gostar! se quiser embalar pra presente, é seguir reto o corredor e virar o canto da direita. - sugeriu
- ah, beleza. obrigada!
- você vai voltar pra são paulo?
- claro. vou voltar pra sempre. volto aqui, é..
- yan.
- volto aqui, yan.
- então tá...
- paula.
- então tá, paula. volte sempre!
(e sorriram quente, em tons de frida kahlo.)

donna mi priega 88.

se é amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mais ainda não é odio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca...
...que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?