Desconfio que ele virá moreno, calmo e de sorriso largo. Não é nada contra os loiros, apenas sei que virá moreno. Quanto a textura não sei, mas desconfio que não seja liso. Desconfio que o encontrarei entre uma estante e outra de literatura nacional da siciliano ou de mpb da saraiva. Desconfio que ele estará usando óculos, pra despertar em mim um certo interesse intelectual. Desconfio que fume, mas pouquinho, como eu. Desconfio que ele beba também, mas só quando está entre amigos querendo celebrar a vida, como faço. Desconfio que ele já tenha tentado aprender violão, mas foi mal sucedido no assunto, porque os dedos são grossos, masculinos e bem acabados. Desconfio que ele não seja de sorrir a toa, que tenha um humor refinado e um olhar misterioso por detrás das lentes finas. Desconfio que ele pense um pouco em mim, ainda que de forma abstrata, quando acorda de madrugada e sente insônia, então desconfio que ele liga o mp3 e fica observando a lua um pouco raivoso da música que o lembra do amor que ele ainda não conhece, ou meramente do fracasso das aulas de violão por conta dos dedos grossos. Desconfio que quando ele pega no sono, sonha com barquinhos de papel e sente saudades do avô que já morreu. Desconfio que o avô seja sua maior saudade e tenha lhe ensinado os mistérios da vida e a cortejar o mulherio, falo cortejar porque desconfio que seja essa a palavra que o velho usava. Desconfio que ele não seja tão bonito, nem tão alto, nem tão forte, mas que tenha braços aconchegantes e saiba falar manso quando está apaixonado. Desconfio que ele colecione cicatrizes de uma catapora que pegou na infância porque era moleque demais e teimoso demais, e por isso se coçava todinho, só de pirraça, desconfio. Desconfio que seja paulistano, carioca ou mineiro, não importa, mas sei que passava as férias em alguma cidade do interior ou do litoral. Se era do interior, desconfio que fugia nas tardes para cavalgar com cavalo roubado, se era do litoral, fugia nas madrugadas para catar conchas ou deitar na areia e ali ficar por horas, contemplando o quebrar das ondas. Desconfio portanto que tenha aprendido a admirar as coisas simples da vida e que saiba ser um bom companheiro, que goste de piratas e de bolo de banana.
Desconfio que ele me reconhecerá quando esbarrar comigo entre as estantes, mas não perguntará meu nome, em partes porque não é direto, em partes porque não é assim que o avô o ensinou. Desconfio que puxará assunto sobre o livro de haikais que estarei comprando e acabaremos trocando telefones. Desconfio que ele não me ligará na primeira semana, mas na segunda certamente ligará, e eu ficarei surpresa. Desconfio que combinaremos um café e ele me fará rir, dizendo que tinha me reconhecido desde o primeiro momento e eu direi que nããão, não me diga que acreditas nessa coisa de amor a primeira vista, e ele me olhará desconfiado dizendo que não acreditava até então. Desconfio que ficarei sem palavras. Desconfio que ele dará um gole mais longo. Desconfio que ficaremos juntos, por anos, talvez alguns, talvez muitos, mas certamente ele me chamará de flor e eu o chamarei de coração, de previsível que sou, desconfio.
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