Consolação, esquina da Dona Antônia de Queiróz com a Augusta. A menina, confusa entre o semáforo, as bagagens e a amiga, em despedida.
se despedem então, com todas as possíveis promessas e carinhos que amigos fazem.
- Boa tarde. Rodoviária Tietê, por gentileza.
A menina ainda abre a janela, coloca as mãos para fora, em seu ritmo quase estático, enquanto os carros seguem seu curso caótico, e aos poucos, a imagem da amiga naquela esquina entre a Dona Antônia e a Augusta vai ficando menor, e menor, até que nada se vê. nada além de uma janela coberta por um busdoor de uma propaganda qualquer do supermercado Pão de Açúcar.
- acabei de trocar de carro, mocinha. você é a primeira passageira que eu pego. - disse sorrindo um certo entusiasmo pelo retrovisor. não que pudesse ver seus lábios, mas os olhos, os olhos enquadrados pelo espelho sorriam, sabia ela.
e por um segundo sentiu uma infundada honra, estranho até, mas se sentiu honrada. era a primeira. fazia tempo que não era a primeira de alguém. e - ah, que ironia - lá estava ela, Avenida Paulista, desvirginando um Renault.
- ah, que legal. poxa, moço. te garanto que não é todo o dia que me acontece isso.
e agora ele ria, ela tinha certeza. não pelo olhar enquadrado, nem nada. mas o ruído, ele riu alto.
e foi preciso alguns precisos minutos de engarrafamento na Paulista para o senhor descobrir os motivos, razões, circustâncias e planos da menina na cidade. alguns poucos minutos a mais e era ela quem recebia uma breve introdução da vida daquele trabalhador de 54 anos, uma filha, que não fosse a condição financeira do pai, estaria estudando em uma faculdade melhor.
- Me faltou tempo - disse irônico, esfregando o indicador contra o dedão, em sinal de dinheiro. - fosse alguns anos a mais e eu teria colocado ela no Mackenzie.
- Acredito muito no mérito das pessoas, senhor. O que é dela, com esforço, vai chegar. - a menina ainda tentou consolar.
Ele, não se sabe se por comodidade ou por crença de fato, acenou com a cabeça, como quem concordasse.
Alí se descobriam dois estranhos, unidos entre o acaso e a coincidente necessidade de um táxi entre a tal esquina da Consolação num final de tarde gelada de terça-feira paulistana. Provavelmente, jamais se veriam novamente. Não importava. Ainda assim, ele dispensou um pouco de sua atenção de taxista, ela poupou a bateria do seu mp3 e a possibilidade de ficar calada, (como era costume em tal situação), para se conhecerem, os dois estranhos. Coisa de gente, intercâmbio de inquietações.
Chegaram. cuidadosamente, ele tirou suas bagagens do carro. Dos 12 reais só cobrou 10, num ato de generosidade. Em pouco tempo, havia criado pela menina um carinho desmedido, digno de gestos de preocupação, devotando a ela um pouco de humanidade. Ainda entrou no carro, e a esperou subir as escadas com a mala, atencioso, como bom pai que era.
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