terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dossiê eu-mesma.

Às vezes vejo aqueles documentarios da Discovery, GNT, Multishow ou da National Geographic sobre civilizações extintas. Sim, eu sou horrores chata. Vejo mermo.
Anyway, o que eu quero dizer é: Legal, professeur Theroux, mas, será que é só isso? Quer dizer, talvez um dia vocês consigam decodificar a escrita dos Maias. Talvez achem o segredo da morte de Nefertiti, ou sabe-se lá qual curiosidade sobre Tutancamón, Alexandre o Grande, Clodovil ou da Lady Di. Tá, tá, beleza. Mas e o que existe de maior por detrás disso tudo? Quer dizer, e o ser humano?
Quando penso em mim, tenho certeza de que os acontecimentos mais importantes da minha vida, aqueles que de fato influenciaram a minha existência, não estejam visíveis ou aparentes. Pelo contrário, são guardados a sete chaves, entre cadernos, anotações de guardanapos, sacos de pão, tickets já usados, passagens de avião, navio, pedalinho, trem do terror, exposições e pasmem: multas de filmes e livros vencidos. Estes, atirados dentro de caixas perdidas e esculhambadinhas e agora, sim, em partes no meio virtual.
Sim, eles possuem materialidade. Sim, eles dizem lá alguma coisa, mas jamais o essencial. Não dizem com quem estive. Não dizem como me sentí, que mãos segurei, que braços abracei, não falam que música que tocava, não falam do clima que existia naquela tarde, ou naquela noite, ou do aroma daquela manhã. Não é sempre que existe um Caminha redigindo com clareza e merecida poesia a descoberta cotidiana das coisas, o encanto que causam sobre mim e o encanto que causo sobre elas. Entendem do que eu falo? As coisas, essas bonitas, na suas primárias, reais e vibrantes formas: aquelas que existiram.
A perecividade das memórias é efêmera, mas precisa. Está lá para nos recordar da abstratabilidade do mundo, da não-palpabilidade dos sentimentos, das lembranças e da riqueza da subjetividade humana diante da vida.
Não querendo citar Saint Exupéry, mas, já citando: É. Talvez o essencial seja realmente invisível aos olhos.

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