é engraçado o que acontece por aqui comigo. os adultos me ensinam muito, mas tenho aprendido demais com as crianças. as crianças, são as crianças que colorem meus dias.
ontem observei novamente um menino do morro. Chamo ele de Dudu, não deve ter mais de seis anos, tenho acompanhado ele há algum tempo. notei que ele tinha dificuldade de se expressar, e talvez por isso reagia com agressividade à qualquer brincadeirinha que os outros meninos aprontavam com ele. Me sentia um tanto frustrada. Não por ele, por mim. por não saber como parar com aquilo. Perguntei aos moradores se alguém tinha informações sobre o garoto. Quem era o pai, a mãe, se era um bom aluno, se tinha irmãos, o que gostava de brincar, quem era seu melhor amigo, o único - talvez.
Descobrí que o pai havia esquartejado a mãe e vivia agora com uma segunda mulher, enquanto ele traficava drogas, essa fazia ponto na estrada, para ganhar alguns trocados. Uma criança vinda de tal meio não poderia ser menos agressiva do que ele vinha sendo, pensei.
Foi então que em uma sexta-feira, presenciei novamente a briga entre ele e os tais meninos. Chamei ele para um canto, com carinho, como quem não queria nada. Me abaixei de forma a ficar na sua altura, segurando-o pela mãozinha esquerda, os dedos pequenos e gelados:
- Dudu, fico triste em ver você bater nos teus colegas. Quando eles implicarem com você, me avisa, mas não bata em ninguém. O mundo já tem muita violência, entende? O mundo precisa é de amor.
Imediatamente, imaginei que o que havia acabado de falar fosse de difícil compreensão para ele, tão pequeno ainda. Ainda assim, calada, fiquei esperando uma resposta. Ela veio.
Dudu agora tinha os olhos marejados e me olhava fundo, uma certa dor e raiva. Segurou o choro durante alguns segundos. De repente, abre os braços, e me abraça, forte, muito forte, até então tinha sido o abraço mais forte que havia recebido. Digo "até então" porque esse abraço teve bis. vários. Hoje, toda vez que apareço na escola, ele corre até mim e me abraça, aquele mesmo abraço. A diferença é que agora não mais chora, apenas sorrí. e ainda completa: "Eu te amo, Pauli."
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